“Não sei de onde o Marcos tirou que sabe jogar bola. Fazer uns gols bonitos de vez em quando e driblar bem não significa nada. Muito perna de pau por aí dá umas cagadas dessas de vez em quando e nem por isso é considerado craque. Mas com o Marcos é diferente, ele visto como o ídolo da escola. Como se não bastasse, o ego dele infla tanto na hora do gol que é difícil manter ele em quadra. O procedimento padrão nessas horas é correr pra arquibancada e ficar se exibindo pras meninas. Quer apostar que se ele fizer um gol nesse jogo vai fazer questão de tirar a camisa e mandar um beijo pra Clara?”
A escola tinha quatro quadras, todas disputadas a socos e pontapés quando começava o recreio. Para adquirir o direito de usar uma delas, os meninos precisavam pegar uma bola no departamento de Educação Física. Os quatro primeiros que chegassem até lá conseguiam. Com o campeonato entre salas se aproximando, ninguém queria perder a oportunidade de treinar um pouco mais. Essa disputa, que antes começou saudável, ficava mais feroz a cada dia.
“A Clara é outra babaca. Toda certinha e que puxa-saco dos professores pra ganhar uma nota melhor. Só porque ela é bonitinha e educada eles caem na lábia dela. Já vi professor deixar ela entregar trabalho uma semana depois só porque ela jogou charme e fez cara chorosa. Se fosse comigo, a hipótese mais positiva era que eu perderia metade dos pontos. Isso se eu pudesse entregar atrasado. Mas como é a queridinha da Clara, tudo pode. Ela é parte da Turminha dos Garotos Legais. Como todo mundo sabe, a Turminha dos Garotos Legais pode tudo nesse lugar.”
Das quatro quadras, a mais disputada era a coberta. A vantagem de treinar lá dentro era que o sol não incomodava, tinha grade separando do resto dos alunos e não corria o risco de aparecer um vacilão aleatório correndo no meio da quadra durante o jogo. Para conseguir esse privilégio, era preciso sair da aula vinte minutos antes e correr o risco de levar uma ocorrência para ser o primeiro da fila da bola. A maioria dos meninos estava disposta a isso para garantir a medalha de ouro e as glórias do campeonato. Quem tinha a vantagem no momento era o time do Marcos, que teve que sair da aula com meia hora de antecedência alegando uma “dor de cabeça”.
“Olha lá o Marcos tirando a camisa. Não sei porque a Clara não beija ele logo, essas duas cobras merecem ficar juntas. Se é para juntar gente ruim, que os dois se juntem de uma vez. Aposto que a empata foda é a Samira. Certeza que ela gosta do Marcos e fica jogando ideia errada pra cima da Clara. A Samira é outra que nunca me tratou bem um dia sequer. Lembro de quando ela chegou aqui no colégio e olhou pra mim com cara de desprezo. Ela logo foi incorporada na Turminha dos Garotos Legais. Escória tende a se juntar, é o que sempre digo. Isso é bom. Quanto mais juntos, mais fácil eliminar todos de uma vez.”
Longe dessa disputa de poder nas quadras, havia um palco. Visão panorâmica de todo o pátio, em especial dos jogos de futebol. Era ali que Camilo passava seus recreios. Sempre sozinho, o garoto destoava do resto da turma por não gostar de futebol. Aliás, até gostava. Sabia de cor a escalação do Atlético Mineiro de 71 (Renato; Humberto, Grapete, Vantuir e Oldair; Vanderlei e Humberto Ramos; Ronaldo, Lola (Spencer), Dadá Maravilha e Tião, comandados pelo Telê), mas não sabia jogar direito. Quando pequeno, aquela mesma turma que hoje treinava o expulsou de quadra por ser muito ruim. Nunca mais teve coragem de voltar. Nunca mais falou com nenhum deles. Nem eles fizeram esforço para conversar com ele. Isso vinha desde a quarta série. Estava no Ensino Médio e nada mudara. Encontrou escape naquele canto do palco, onde podia xingar cada um da maneira que bem entendesse.
“A Turminha dos Garotos Legais é o pior câncer dessa escola. Eles andam por aí como se fossem invencíveis, os donos de tudo, com um sorriso no rosto como se nada os pudesse abalar. Babacas. Todos uns babacas. Eles parecem seguir num mesmo caminho, como se a vida deles já estivesse toda planejada e seguindo no rumo certo. Aposto que nenhum deles tem medo de nada. Que o papai banca tudo. E os outros idiotas da escola ainda acreditam nessa ilusão de felicidade. A Turminha dos Garotos Legais é o modelo que todo mundo deseja seguir. Ser aceito por eles é um feito considerado impossível. Babacas.”
Nas quadras, ninguém se importava com o que acontecia ao redor. Era o jogo e mais nada. O foco era nos passes, nas jogadas ensaiadas, no posicionamento, nas finalizações. O foco mudava quando saía um gol. Sorriso no rosto, alívio e a comemoração com a torcida. Era a chance dos apaixonados se declararem para as pretendentes, dos namorados darem uma prova de amor. Mas depois o foco voltava para o jogo. Sempre o jogo. Ninguém se importava com o palco, onde o brilho do cano de uma arma agora podia ser visto.
“Eu estou pouco me fudendo para essa Turminha dos Garotos Legais. Quem eles pensam que são para ditarem a moda nessa escola? Quem eles pensam que são pra me excluir? Pra me tratar feito lixo? Só porque não me ajusto aos padrões que eles impuseram eu preciso viver em uma bolha, sem convívio com ninguém? Tipo um portador de doença contagiosa. Não é justo. Não é mesmo. Cada dia mais essa escola me cansa. Essas pessoas, a forma como elas me olham e me julgam. Eu devia estar ali jogando futebol com eles. Não estou. Eles não me querem. Foda-se eles, então”
Camilo havia roubado a arma do pai há umas duas semanas. Todo dia subia no palco e tentava criar coragem. Com ela em punho, fechava um olho e mirava em cada um dos jogadores. Marcos, Hugo, Careca, Gustavo. Todos passaram pelo foco da arma em algum momento. BANG. BANG. BANG. BANG. O barulho dos tiros soava em sua cabeça como uma realidade não tão distante. Ainda não criara coragem para disparar. Não ainda. Na sua cabeça, era só uma brincadeira que a cada dia ficava mais realista. Já podia imaginar a cabeça da Clara explodindo no meio da quadra. Os meninos gritando e ele disparando o pente contra o máximo de pessoas. Faltava só a gota final de coragem, aquela que transbordaria o copo. Faltava pouco, ele sabia.
“Turminha dos Garotos Legais…”
BANG. BANG. BANG. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL.
Para ler ouvindo: Cool Kids – Echosmith
Comecei a vida dentro de um laboratório de química, mas não encontrei muitas palavras dentro dos béqueres e erlenmeyers. Fui para o jornalismo em busca de histórias para contar. Elas surgem a cada dia, mas ainda não são minhas. Espero que um dia sejam.