– Falar é muito fácil, Michael! Cê acha mesmo que eu tô assim porque eu quero?
– Ah, mas é exatamente o que cê tá dizendo.
– Não, você é que não ta entendendo! Eu to cansado disso, porra! Todo santo dia tem alguém me perguntando se eu tô bem e quando eu falo que não a pessoa vem me dando lição de moral. Não quer ouvir a verdade não me pergunta, uai!
– É disso mesmo que eu to falando! É disso mesmo! É a mesma ladainha de sempre. Ah, tem gente passando por situações muito mais complicadas que você… você devia agradecer pelo que você tem… você tem que ver o lado positivo das coisas… Cara, cê acha que eu acordo pensando: “nossa… que dia excelente pra me sentir um lixo!”?
– Sabe porra nenhuma! Se soubesse não tava aí falando esse monte de merda!
– Me ajudar? Humpf. Foi por isso que terminei com minha mulher. Era a mesma coisa. Me chamava de ingrato, de dramático, de esquisito, e depois vinha falando que queria me ver bem! Ela nunca fez o menor esforço pra me entender, cara. Nunca!
– Velho, tem uma enorme diferença entre não saber como lidar e ficar pagando pau o tempo todo.
– Explicar como? Tem dias que simplesmente não to bem, uai. Ela ficava insistindo em achar motivos. Imaginava um milhão de coisas. E no final ainda falava que eu tava com alguma treta!
– Olha, eu não to afim de ficar falando disso, não. Já to cansado de remoer essa história.
– Me abrir? Que diferença que faz? Toda vez eu escuto a mesma besteira. To muito cansado, cara. Cansado mesmo.
– O que? Ocupar meu cérebro? Velho, cê prestou atenção em alguma coisa que eu falei até agora? Você sabe o que é ficar o dia inteiro com a cabeça cheia de merda? Você sabe o que é não ter a menor vontade de sair da cama?
– Como que eu vou saber? Sei lá, uai. Acho que já tem um tempo.
– Não sei, cara. To me sentindo o Xavier tentando correr…
– X-Men, Michael. X-Men. Não é possível que cê esqueceu…
– Ah, claro. Um homem adulto e sério não tem tempo pra historinhas de super-heróis.
– Talvez seja por isso que eu não me encaixo nessa porra desse mundo…
– Tsc. Quer saber? Vou abrir outra cerveja. Quem sabe assim você não apaga e para de falar bobagem na minha cabeça?
Para ler ouvindo: Black Sabbath – Paranoid
Esta crônica faz parte do Music Experience
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É isso aí, Brunín! Dentre as histórias que vieram à mente ouvindo Paranoid, do Black Sabath, decidi trazer à tona o feeling de insatisfação e desesperança que ecoou em mim. Há algumas possibilidades interpretativas interessantes aí, mas isso fica a cargo do leitor! Trechos da música podem ser facilmente identificados ao longo do texto, by the way.
Seu desafio pra semana que vem é Techno Fan, dos Wombats. Já imaginei o que você vai escrever. Será que vou acertar?

Viajo há muito tempo percorrendo vários sistemas bem diferentes. A gravidade do planeta Química exerce forte atração sobre mim, mas o astro chamado Literatura é aquele no qual me sinto mais confortável. Nos entremeios e desencontros do caminho, músicas e histórias me ajudam a não perder o rumo.