O retorno do rei

J. R. R. Tolkien
Publicado em 1955
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Ou “A história de Frodo-dos-Nove-Dedos e o Anel da Perdição”

Foram mais ou menos quatro meses entre o início da leitura do primeiro livro e a conclusão do último. O começo, o meio e o fim da Guerra do Anel, com todas as suas nuances e consequências. Já falei sobre a estrutura da obra no texto sobre A sociedade do anel e fiz as observações sobre os personagens durante a resenha de As duas torres, então vou tentar fazer algo mais focado por aqui. Se você sentir falta de algo, provavelmente estará em um dos textos anteriores. Se não estiver, me avisa.

Prontos? Então vamos lá.

Em A sociedade do anel somos apresentados a esse mega universo criado pelo Tolkien, conhecemos os personagens e onde a história se insere. As duas torres é como um forno a lenha, que nos aquece lentamente para o perigo que iremos enfrentar em um futuro próximo. Já O retorno do rei é a explosão vulcânica, a grande erupção que estávamos aguardando.

Como é o terceiro livro, ele se beneficia de uma das maiores vantagens em ser o volume final de uma série: não se preocupar mais com apresentação de personagens. Como já os conhecemos, sabemos bem o que esperar de cada um deles. Isso faz com que O retorno do rei ganhe muito nos quesitos clima e clímax, essenciais para a guerra que está por vir. Claro que as descrições do Tolkien continuam, mas a ação assume um lugar de maior destaque.

E tem Olifantes fodões. Quero ver tu derrubar um desse sem ser o Legolas

Outro ponto que é fundamental para o livro é o clima de desesperança que invade Gondor e a jornada de Frodo e Sam. A narrativa construída por Tolkien nos faz temer pela segurança da cidade, pelo sucesso da jornada dos hobbits e pelo futuro da Terra Média. A cada pequeno sopro de esperança ou a cada pequena vitória, um furacão de pânico invade a história. A força de Mordor é sempre maior. A marcha final em direção ao Portão Negro é de uma coragem/desespero gritantes. Um caso onde vida e morte andam lado a lado, que mostra o quão perdida estava a Terra Média naquele momento.

Aqui cabe uma observação importante: toda a história da Guerra do Anel e do Retorno do Rei é contada a partir do ponto de vista dos hobbits. Nos outros livros essa informação nem fazia tanta diferença, mas nesse faz. E muita. A história gira em torno deles e, para explicar isso melhor, vamos falar da importância de cada um.

Pippin: Os acontecimentos de Gondor passam, na maioria do tempo, por sua visão. Tudo começa com o hobbit se transformando em um membro da guarda real, nos apresentando o interior da cidade e suas histórias. Dentro da guerra, Pippin é fundamental por alertar a todos sobre a demência crescente de Denethor, regente de Gondor, e ajudar a salvar Faramir. Outro ponto importante (e que faz um paralelo interessante com O Hobbit) é o ataque ao Portão Negro, onde Pippin recebe um golpe e desmaia. Tal como ocorre no final da história de Bilbo, nós não ficamos sabendo como termina a batalha, apenas por relatos posteriores.

Merry: Enquanto Pippin fica na cidade, Merry vai para o combate e tem um dos papéis mais importantes durante a Guerra. Em um primeiro momento, ele se sente deixado de lado pelos Cavaleiros de Rohan, que pretendem largá-lo em Edoras. Resgatado por Éowyn, os dois são responsáveis pela derrota do Senhor dos Cavaleiros Negros, que não poderia ser morto pelas mãos do homem. Então, nada melhor do que um hobbit para enfraquecê-lo e uma mulher para derrotá-lo. A partir de então ele vai para as casas de cura e seu tempo por lá nos ajuda a entender melhor vários pontos da Guerra.

Frodo e Sam: Os dois últimos hobbits são a única esperança para Gondor conseguir derrotar Sauron. Se o clima na cidade é de desespero, a jornada dos dois é marcada pela desolação, sem comida, água e rumo à morte certa ao atravessar as terras devastadas de Mordor. E tudo isso sob o poder cada vez maior do Anel, que domina Frodo com uma intensidade assustadora. A cena final, com Frodo e Sam escapando da Montanha da Perdição, sem esperanças e entregues para a morte, é fantástica.

Apesar de o livro ser contado sob o ponto de vista dos hobbits, o grande nome dele é Aragorn. Desde o primeiro volume já sabíamos que O Retorno do Rei seria sobre a ascensão do numenoriano ao trono de Gondor. Mas como ele faz para atingir tal posto e convencer a população a segui-lo é feito de uma forma impressionante. É nesse livro que enfim vemos o poder que estava escondido naquele guardião do Condado e no guerreiro e rei que ele se torna nos últimos capítulos.

Últimos capítulos, aliás, que lembram muito O Hobbit. Se vocês se lembram bem, o final do primeiro livro de Tolkien narra o retorno de Bilbo para o condado, onde está acontecendo uma confusão (o leilão promovido pelos Sacola-Bolseiros). No final da trilogia do anel acontece exatamente a mesma coisa. Muito tempo é dedicado para as despedidas e, quando os Hobbits chegam ao Condado, um problema mais sério ainda acontece.

Muito mais do que um último clímax, essa parte nos mostra claramente o quanto os personagens evoluíram após a jornada de pouco mais de um ano. Merry e Pippin se tornam guerreiros natos e, junto com a coragem de Sam e a calma de Frodo, conseguem controlar a confusão causada por Saruman com facilidade. A reação de cada um mostra como os horrores da guerra afetaram os quatro hobbits de maneiras completamente diferentes. Nunca o “Lá e de volta outra vez” foi tão bem representado.

O Condado, destruído por Saruman e Língua-de-Cobra

Com uma das despedidas mais singelas da literatura, a história de Frodo-dos-Nove-Dedos e o Anel da Perdição termina. Mais do que a narrativa sobre uma Guerra, Tolkien criou a história de um mundo, que muitas vezes chega a ser tão complexo quanto o nosso. Uma das grandes obras mundiais de fantasia, sem dúvidas.

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
J. R. R. Tolkien
Editora Martins Fontes, 2009
431 páginas
Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

P.S.: Já li O Hobbit e li a trilogia do anel. Próximo passo é reler O Silmarillion e partir para os inéditos (para mim, ok?) Contos Inacabados e Filhos de Húrin. Depois vou ler Roverandon e Mestre Gil de Ham, só pela diversão, e terminar minha incursão no universo do Tolkien. Um dia termino!