Quando começou a organizar o que fariam no feriado, tinha consciência de que aquele tinha tudo para ser o melhor Réveillon da sua vida. A competição era forte, sabia. Teve a viagem para Guarapari, aquela vez na baladinha em Floripa e a lendária festa na casa da Tuca. Mas agora era ele quem estava no comando. Seria a primeira vez que os amigos iriam para o sítio da família, em uma promessa de quatro dias ininterruptos de bebedeira e churrasco. Muita música na beira da piscina, um bom estoque de álcool e energético, mulherada louca de bala e todo mundo nos menores trajes possíveis. O que sairia dali seria história.

Havia só um empecilho: a Manu tinha confirmado presença. De todas que não poderiam aparecer, justo ela decidiu dar as caras. Não que eles fossem inimigos. Pelo contrário. Os dois mal se esbarravam nos rolês da turma, mas todas as vezes em que isso acontecia, se pegavam nível hard. Tudo escondido, ninguém sabia do esquema. Era quase uma questão física, de não conseguirem ficar no mesmo ambiente sem sair fagulhas. E, mesmo que um dos dois estivesse enrolado com alguém, acabavam transando em algum momento. Era tradição.

Por isso a preocupação dela estar presente no Réveillon. A expectativa para o sítio era cair em uma putaria sem limites. Seriam duas mulheres para cada homem e bebida liberada, a receita perfeita para a merda. Mas, com ela ali, não sabia como seria a dinâmica. Está certo… não tinham nada sério, não havia acordos estabelecidos. Apenas acontecia. Só que não sabia como seria passar tanto tempo ao lado dela sem poderem se pegar ou tendo que tomar cuidado para ninguém ver. Ele era viciado naquela quicada, naquele rebolado. Puta que pariu, como eles se davam bem na cama. Como conseguiria transar com outra com ela no quarto ao lado?

Até mesmo porque havia só um limite entre os dois: o de nunca dormirem juntos. Com o trabalho feito, cada um ia para seu apartamento e era isso. Passar quatro dias com ela, dormindo na mesma casa, seria algo novo. Tinha plena certeza de que mudaria o que construíram com tanto esmero até então.

Com essa questão em mente, começou a receber os amigos na quinta-feira à noite. Umas bebidinhas para dar início aos trabalhos e uns jogos de cartas para fazer o esquenta do final de semana prolongado. Na sexta é que as coisas começaram a ficar mais quentes – e que estava planejado dela chegar. Ele ficou na churrasqueira a maior parte do tempo enquanto a área da piscina saía do controle. À medida que o álcool subia, as pessoas perderam o pudor. O Capacho abriu os serviços e beijou duas ao mesmo tempo. A Lurds se enganchou com o Yussef. E ninguém mais tinha notícias do Igor e do Victor, que sumiram para algum canto.

Viu a Manu chegar e logo dar uns beijos no Jota, mas toda hora ela olhava para a churrasqueira para ver como ele estava. Fazia de propósito, para atiçar. Apesar disso, não se falaram direito até a virada. Quando deu meia noite, foram se cumprimentar e rolou o primeiro beijo. Um selinho e um sorriso safado. A promessa de algo a mais. Então, ele se deu por satisfeito e perdeu a compostura. Foram incontáveis copos de whisky com Red Bull, flashes de estar deitado no sofá com a Geovana, levar ela para o quarto, sentir as mãos dela no meio de suas pernas, a língua no bico do peito e acordar no dia seguinte sozinho na cama, pelado, com a boca seca e uma dor de cabeça fodida.

Pelas camisinhas no chão, pelo menos tinha lembrado de se proteger. E, tirando algumas risadinhas do Capacho quando ele apareceu para tomar uma xícara de café e um Engov, parecia estar tudo bem com o resto da galera. A Geovana também já estava tomando café e direcionou uma piscadinha para ele. Era o sinal de que a noite foi boa e de que estavam liberados para fazer o que quisessem no resto do final de semana. Ainda tinham o sábado e o domingo inteiros pela frente e mais não sei quantos engradados de cerveja para terminar. Mas havia a questão da Manu. Antes, porém, precisava se livrar daquela ressaca com um bom banho de piscina.

Deitado na espreguiçadeira, tomando coragem para pular na água, não viu quando ela se aproximou.

“Parece que ontem foi divertido”, sussurrou Manu.

“Deve ter sido, não me lembro de porra nenhuma.”

“A gente lembra, vocês fizeram um pouco de barulho.”

“Ai, caralho. Foi tão escandaloso assim?”

“Bom, a cama ficou batendo na parede e dava para ouvir você bufando. E você nem costuma bufar daquele jeito.”

“Merda, por isso que o Capacho tava rindo quando entrei na cozinha.”

“Ele não tá com moral nenhuma para ficar rindo. Depois pergunta o que ele fez aqui na piscina ontem à noite.”

“Eita, porra. O que ele fez?”

“Vem cá que te mostro”, falou baixinho no ouvido dele enquanto levantava e dava um mergulho.

É agora, pensou. A ressaca foi embora na mesma hora que encostou na água gelada e se aproximou por trás dela. Manu virou, deu um beijo um pouco mais demorado, mergulhou e se encaminhou para a cascata, como se o convidasse para ir junto. Ele foi e ficou a menos de um palmo dela. Atrás do véu de água, as mãos se buscavam. A dele encontrou a parte de baixo do biquíni e entrou. Ela gemeu baixinho e fechou os olhos. Foi quando ouviram as vozes da Carmem e da Tuca. Rapidamente ela sentou na borda da piscina e ele ficou lá dentro, escondendo o volume da sunga. Começaram a conversar como se nada tivesse rolado. As meninas chegaram, entraram no papo e, em pouco tempo, a piscina estava cheia de novo.

A ressaca de todo mundo passando, as primeiras carnes do almoço saindo – era o dia do Heverton na churrasqueira –, o funk torando na JBL e o clima voltando a esquentar. “Bebe isso aqui”, alguém disse. Sem nem perguntar o que era, tomou. E a tarde passou como um shot de tequila. Quando retomou a consciência do que estava fazendo, havia escurecido e ele estava no sofá se atracando com a Camilete e com o Lucca. Estavam a um passo de cometer um atentado ao pudor quando decidiram ir para o quarto. Porém não foram os únicos a terem essa ideia.

Quando abriram a porta, a Manu estava com o pau do Curicica na boca. Mas foi só um segundo de susto. Ela sorriu e convidou os três a ficarem ali. Eles se olharam, deram de ombros e trancaram a porta. Eram muitas mãos, bocas e gemidos ao mesmo tempo, sem distinção de quem estava com quem. Exceto ele e Manu. Estava com tesão de vê-la com outros(as), mas, na verdade, queria ela toda para ele. Sentir aquela quicada de novo, em uma privacidade que só eles sabiam criar. Os corpos se misturavam e os dois se evitavam de propósito, lançando olharem oblíquos e dissimulados. Só tornaram a se falar quando tudo tinha terminado e todos estavam deitados no quarto, tentando recuperar o folêgo;

“Vou ali na cozinha fazer um chá, você quer?”, ela perguntou, maliciosa.

“Lógico, nunca tomei um chá igual o seu.”

E os dois sumiram por quase duas horas.

Para ler ouvindo: Toma toma vapo vapo

Esta crônica faz parte do Music Experience